Há alguns anos li a “Desgraça”, de J. M. Coetzee e fiquei com a sensação de que há uma história pós-apartheid, de violência, racismo, punição e expiação que ainda falta contar.

SanchoGome

Poder-se-ia dizer que “Desgraça” é a estória do declínio de um homem branco, um professor universitário, um intelectual, na África do Sul. E seria verdade. Mas o que é verdadeiramente relevante, neste livro, é a imagem da violência racial que parece manter-se naquele país.

A violação da filha do professor Lurie não é um ato de violência de género. O ódio que ela vê nos rostos dos homens revela que eles “apenas” estão a cobrar aquilo que acham que têm direito. E fazem-no impunemente, não apenas porque as autoridades não são capazes de o impedir, mas porque parte da comunidade encobre os crimes. Há uma penitência para os brancos que querem viver na nação do arco-íris. E ninguém está dispensado de a pagar.

Mas se impressiona a atitude de parte da comunidade perante este “castigo” que alguns acham que têm direito a ditar, – em nome dos crimes, da violência racial e da supremacia branca que, durante séculos, foram impostos aos negros - é ainda mais impressionante a aceitação passiva dos brancos, especialmente, dos mais jovens. A letárgica resignação com que a filha de Lurie aceitou a violação de que foi alvo mostra-nos que ela própria sente necessidade de expiar os crimes levados a cabo pela sua etnia. E aceita-o porque entende ser o seu tributo para ali poder viver. O pagamento da sua quota, pela pesada herança criminosa que acredita ter recebido.

Ora, esta é efetivamente uma história ainda não contada.

O que me preocupa verdadeiramente é que, como nos mostra Dostoiévski, em “Crime e castigo”, o castigo não acaba com a violência do crime inicial. A expiação dos pecados pela comunidade branca é em tudo semelhante à do condenado à morte, na obra de Dostoiévski. A pergunta e a resposta do condenado encontram paralelo nesta espécie de tributo que tem de ser pago: no “momento de morrer dizia (..) que se o deixassem viver num alto, numa rocha e num espaço tão reduzido que mal tivesse onde pousar os pés - e se à volta não houvesse mais que o abismo, o mar, trevas eternas, eterna solidão e tempestade perene -, e tivesse de ficar assim, em todo esse espaço, a sua vida toda, mil anos, a eternidade... preferiria viver assim do que morrer imediatamente? O que interessa é viver, viver, viver! Viver, seja como for, mas viver! O homem é covarde!”

E sabemos que a cobardia é uma das dimensões que interage com a violência. Esta história revela essa agressividade latente de origem racial que persiste na sociedade sul-africana. É uma comunidade “rainbow” de extrema complexidade política e ainda em formação, sem a consistência que a passagem dos séculos conferem às nações. Há antagonismos e velhos rancores que insistem em não ficar no passado. O crescimento de movimentos radicais assim o parece indiciar. Pudessem todos os sul-africanos, negros e brancos, mestiços, de origem asiática, todos, todos, ser fiéis ao legado de Nelson Mandela e aquele país seria um portento. Mas ainda falta um longo caminho a percorrer. Como nos ensinou Dostoiévski, “o sangue todos o derramam. [...] Esse sangue corre sempre em onda sobre a terra. Quem o derrama como champanhe sobe logo ao capitólio e é tratado como benfeitor da humanidade”. Mas naquele país parece haver quem acredite que o sangue e o sofrimento de Mandela não foram suficientes. O seu sacrifício e a sua clarividência não parecem ter chegado para acabar de vez com os demónios daquela sociedade e para o tornar, como é seu lugar de direito, um benfeitor da Humanidade. A realidade cruel é que Madiba não levou consigo a história da tensão racial do seu amado país. Ainda assim, há esperança: o seu exemplo deixou uma promessa que as novas gerações estão obrigadas a cumprir. Em nome de Mandela e de todos os sul-africanos.

PS - O plágio está na moda. “Opinion makers” da nossa praça fazem-no constantemente. Uns plagiando à descarada, outros de forma mais sofisticada, com traduções e tudo. Mas é prática corrente.

Até um presidente de Câmara desta nossa terra já o fez, numa tal de rota para o futuro. Ou num artigo de opinião. Ou em ambos, não se sabe ao certo.

Porque não quis ficar de fora (mea culpa, a inveja é um pecado mortal de que padeço), acho, portanto, ter chegado o meu momento. E até nem fui original: plagiei-me a mim próprio, copiando, numa atitude absolutamente desprezível - posso acrescentar, antes que alguém o faça - uma certa escritora portuguesa (cujo nome recuso-me a citar porque para má literatura basta este meu texto e aqui apenas quis citar autores de elite).

Recuperei algumas ideias de um texto escrito há alguns anos mas que me parece oportuno, até tendo em conta o aparente reforço de algum discurso de ódio que parece emergir nalguns sectores da sociedade sul-africana, não obstante a hercúlea missão, que, felizmente, o ANC insiste em chamar a si, de manter o país na rota em que o deixou Nelson Mandela.

In «JM»